Skip to content

“A “Nova Roma” de Darci Ribeiro faz história e…Dunga, claro!”

junho 22, 2010

Por Lúcio de Castro (Jornalista)

Virou assunto recorrente neste momento da Copa: os países da América do Sul tão quebrando a banca na competição. Até aqui, em 10 partidas em que estiveram envolvidos, foram 8 vitórias. Nada do que for dito pode ser definitivo, mas valem algumas pensatas sobre. Apenas um livre pensar, formulação de hipóteses, que o tempo poderá comprovar ou não.

Esporte, política e economia sempre estiveram lado a lado. Não é novidade pra ninguém, claro. Tudo isso forma a tal geopolítica do esporte, intimamente ligada e contaminada pela política, economia e geopolítica do mundo, com suas nuances, crises, hegemonias, resfriados e suspiros. Também a geopolítica do esporte passa pelos movimentos migratórios, cada dia mais intensos e provavelmente uma das grandes questões deste século. O deslocamento das massas humanas pelo mundo será necessariamente um dos grandes assuntos do século XXI.

Nesse momento de de supremacia e vantagem da América do Sul sobre a Europa nos gramados, vale a pena esboçarmos algumas hipóteses para tal êxito. Vale uma irresponsável tentativa de análise de causas e efeitos para o cenário que estamos vendo!

As implicações, causas e consequências de um sobre o outro (política/economia & esporte e sua geopolítica) são óbvias demais, se refletem em Copas do Mundo, Olimpíadas, quadros de medalhas, ligas desportivas regionais e campeonatos continentais.

Alguma dúvida? As mesmas estruturas e conjunturas que tornaram a falecida União Soviética em potência do esporte foram testemunhas de sua derrocada olímpica. O vácuo impulsionou o adversário direto da guerra fria, do mundo bipolar em líder único do esporte. E os Estados Unidos reinaram absolutos e solitários no pós-guerra fria. Até a inacreditável e vertiginosa ascensão chinesa na economia mundial, e ato contínuo, no esporte mundial.

As crises economicas globais geraram o maior movimento de seres humanos pela terra de todos os tempos. Migrações econômicas com tudo de trágico que representam mas também com o lado espetacular que significaram: arrombaram os antigos “santuários” de pretensas “raças puras”. O resultado foi o tal “amor Beneton”, no ar e visível em todas as cidades europeias, o sopro de novo que bateu no velho continente. No futebol não foi diferente, como veremos a seguir.

As potências econômicas importaram o pé de obra barato do terceiro mundo. Com isso ganharam em qualidade nas suas ligas, transformando o que era monótono (ou “boring” como mesmo alguns ingleses qualificavam) em disputas fascinantes, repletas de técnica, com o melhor do mundo em ação. Brasil, África, desfilando em gramados ingleses, italianos, franceses e espanhois. Até chegarmos ao auge dessa globalização e nova geopolítica ao termos um time italiano campeão europeu com apenas um italiano entrando em campo aos 43 do segundo tempo. Com seus heróis africanos ou vindos do lado de baixo do Equador.

Não precisa ir longe para tentar ou vislumbrar as consequências desse movimento migratório: o exagero dessa importação se revelou bom para os clubes e para as ligas, mas ruim para as seleções nacionais. Afinal, legiões de jovens formados nas categorias de base desses países acabam represados quando chegam aos times de cima. Isso quando as próprias categorias de base não estão recheadas de meninos vindos do terceiro mundo. Sem jogadores de talento sendo formados, chegamos ao deserto de criação que é hoje uma seleção italiana. Mesmo equipes muito aguardadas como a Inglaterra, vem revelando suas falhas nas posições em que mais tiveram problemas para revelar, e nas quais mais importaram, como no gol.

Ironia do destino com uma gente acostumada a “aceitar” quando muito mão de obra do terceiro mundo para serviços braçais, trabalhadores vítimas de xenofobia permanentemente. E esses que costumam recusar essa mão de obra agora tem problemas para reposição nos selecionados nacionais em lugares ocupados por artistas contratados para pé de obra. Boa ironia da história!

Como os “amores Benetons” brotam, em breve veremos muito mais equipes europeias misturadas, miscigenadas. E esse deserto de criatividade que vamos identificando em alguns países, será resolvido. Seja pela solução que Portugal vai adotando, da naturalização (ainda que bem discutível), ou pela miscigenação tardia que caminha a passos largos, queiram os neonazistas, neofascistas, separatistas e xenófobos ou não.

E aqui chegamos as razões do sucesso: enquanto não chega plenamente ao velho mundo essa miscigenação, vão brilhando na Copa do Mundo os que promoveram a mestiçagem anteriormente. Os que se misturaram e geraram uma gente criativa, inventiva, talentosa. Mestiça, morena, cheia de potencialidade.

É o que estamos assistindo: a “Nova Roma” de Darci Ribeiro brotando nos gramados da África. Aquela previsão do velho professor: “Vai florescer no mundo uma civilização diferente, que nunca ninguém viu. O mundo vai ver espantado”. A previsão de Darci era ligada ao Brasil, mas, por licença poética, amplio no campo do futebol para a América. Segundo ele, uma gente capaz de contruir um novo modelo.

Talvez o que estejamos vendo em campo seja o sinal, a anunciação como diria Alceu, desse novo mundo previsto por Darci Ribeiro. Vale a transcrição do Mestre. Definitivo. Fala, Darci:

“Um novo gênero humano diferente de quantos existam. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade. Essa mestiçagem fez nascer um novo gênero humano. Nova gente, mestiça na carne e no espírito”.

Em campo ao menos, essa nova civilização prevista por Darci Ribeiro parece ir florescendo nas seleções do lado de baixo do Equador.

Ps- Resistirei ao assunto Dunga. Vai só no pé de página. Tá tudo no blog, pontos prós, contra…Vide posts: “John Dunga Rambo e a guerra que não terminou”, “Pingos nos iiissss antes da jabulani rolar!” e “Esse filme de James Bond ainda acaba em briga de mão…”.

John Dunga Rambo realmente é incontrolável, com pouca educação, isso é o óbvio. E falta de educação também é inadmissível, com quem quer que seja. Mas é duro ver alguns oportunistas de plantão, “noves fora” (!), os maiores defensores de Dunga até aqui, intransigentes puxa-sacos, agora mandando editoriais contra o sujeito. Da noite pro dia…Parece que faz tanto tempo assim o jantar em que ele foi escolhido…Quanta coisa mudou! Falei disso também ao dizer que logo Dunga veria um monte de oportunista mudando de lado e dando as costas. O pior da existência humana materializada no oportunismo barato.

Sigo discordando de um monte de coisa de Dunga e assim será. Assim como sigo certo do que disse: sentiremos saudades da cobertura sem privilégios de seu tempo. E apesar de estar certo de minhas divergências, ri muito ao ler o blog da Marinilda, (zumbaiazumbi.blogspot.com).
A velha companheira de Jornal do Brasil, das mais atuantes e combativas de nossa imprensa foi definitiva, pelo menos até segunda ordem e não consigo parar de rir desde que li:
“Nunca imaginei que defender o Dunga fosse uma posição progressista. Agora é!”.

One Comment leave one →
  1. pcavalcanti permalink*
    junho 23, 2010 11:47 pm

    Texto bacana… e definitivamente deixa os amantes do futebol pensando!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: